Artigo “Recensão crítica do livro: “António de Azevedo e Guimarães: vida e obra” , por António José de Oliveira

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Quem vê na montra de uma livraria o livro “António de Azevedo e Guimarães: vida e obra”, com uma fotografia na capa da autoria de José Pastor, fica tentado a dar uma olhadela. Trata-se de uma imagem da escultura existente no jardim da Alameda, da cidade de Guimarães, da lavra de António de Azevedo, notável escultor que marca a paisagem urbana vimaranense. A publicação deste livro da autoria de Maria Rosa Saavedra, técnica superior do Museu de Alberto Sampaio, com fotografia de José Pastor, merece ser assinalada, porque vem preencher uma lacuna na História de Arte. Desilude-se aquele que busca nesta obra, um mero entretimento (pese embora o fato de não ser nada entediante a leitura desta monografia), mas fica agradado todo o especialista em arte, o museólogo, o gestor de património, pela leitura de uma obra que lhe diz muito e lhe será provavelmente de grande utilidade.

O escultor António de Azevedo (1889-1968) natural de Vila Nova de Gaia, adotando o Modernismo como escola, após ter residido em Paris (1911-1914), é em 1931 convidado para ser docente e dirigir a Escola Industrial e Comercial de Guimarães (atualmente Escola Secundária Francisco de Holanda). Desde cedo é convidado a participar em Comissões independentes, que assinalam a vida cultural e estética de Guimarães. São da sua autoria na cidade de Guimarães, as estátuas do jardim da Alameda com o Fauno (1934) e a Rapariguinha (1942), permanecendo juntos desde então naquele espaço, dando um toque de harmonia estética ao jardim recentemente renovado, aquando da Capital Europeia da Cultura. É dele o busto do arqueólogo Martins Sarmento, e todo o enquadramento granítico, no Largo do Carmo (1934). É o autor do monumento e o alto-relevo de Alberto Sampaio, no Largo dos Laranjais (1956) e a estrutura em que assenta o medalhão de António Teixeira Lopes à memória do Gravador Molarinho, no Largo Condessa do Juncal (1935), bem como o medalhão a Torres Carneiro que remata a escadaria da Casa do Despacho da Santa Casa da Misericórdia. É dele ainda, em espaço público, o busto de Luís de Pina, na Penha, ou de Francisco Inácio da Cunha Guimarães, em Pevidém. De encomenda particular, as principais figuras políticas, culturais e económicas da urbe vimaranense nos anos 30, 40, 50 e 60 do século XX, são esculpidas pelas mãos e sensibilidade do artista. O próprio Museu de Alberto Sampaio possui nas suas reservas, em depósito da Câmara Municipal de Guimarães, várias esculturas em gesso do artista.

A obra plástica de António de Azevedo não se resume apenas a Guimarães e ao seu concelho. A sua obra espalha-se pelo Porto, Espinho, Vila Nova de Famalicão, Bragança, Vila Flor e Caldas da Rainha; encontrando-se na posse de Museus (Soares dos Reis, História da Medicina, Amadeo Sousa Cardozo, José Malhoa, Alberto Sampaio e Abade Baçal) e em colecções particulares. Este livro editado pela Muralha-Associação de Guimarães para a Defesa do Património, foi apresentado ao público no passado dia 22 de Dezembro, na Assembleia de Guimarães, acompanhado com a exposição de algumas fotos constantes no livro. Curiosamente, a Assembleia de Guimarães foi a instituição que promoveu, a 26 de Junho de 1965, uma homenagem pública a António de Azevedo.

A edição neste campo é uma verdadeira singularidade, sendo, pois, de acolher com entusiasmo os estudos dedicadas a artistas gaienses que exerceram a sua actividade em Guimarães. O livro reúne 72 páginas da autoria de Maria Rosa Saavedra (com notas prévias de Rui Vítor Costa, do Cineclube de Guimarães e da Assembleia de Guimarães), que são ilustradas por dezenas de fotos de José Pastor. Esta obra, de grande qualidade gráfica (da responsabilidade da design Alexandra Xavier), está dividida da seguinte forma: nove capítulos (sobre a vida e obra do artista); uma interpretação fotográfica da obra de António de Azevedo e um glossário artístico. A completar e a fechar a obra, uma bibliografia seletiva, mas suficientemente elucidativa, guia o estudioso para futuros trabalhos académicos sobre a vida e obra deste escultor que Guimarães acolheu no seu seio.