Artigo “O CONGRESSO OU UM FUTURO POUCO RADIOSO” por César Nóbrega

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Num futuro não muito distante os únicos actores vivos são Robin Wright e Tom Cruise. Os dois deixaram de trabalhar nos filmes. Um ajuda a Unicef a acabar com a fome no mundo, a outra cuida do filho com uma doença rara, quase cego. Ela acha-se a profeta da desgraça. O fim de um mundo em que as pessoas sentem. Em que as pessoas vivem.

Num futuro não muito distante os adultos brincam ao mundo animado. Sonham ser os melhores. Têm pesadelos com a falta de amor. Precisam fazer de conta que vivem.

Algum cinema continua a reinventar-se. É o que acontece com o cinema de Ari Folman. É impossível qualificar este filme – “O Congresso”. Com recurso a uma animação que às vezes faz lembrar “The Wall” dos Pink Floyd, realizado por Alan Parker, vemos a decadência de uma sociedade que nunca existiu, e que no entanto nos parece tão conhecida.

Até Grace Jones tem direito a um papel – o de uma “quase” mentora. O mundo deixou de ser o mundo dos vivos, em oposição pelo mundo dos mortos. O tempo é subjectivo. São as pessoas que decidem o que fazer com ele. O mundo é uma sucessão de jardins dos prazeres. Não há guerra, não há segredos, todos são o que querem ser.

É através dos olhos de uma das mais bonitas actrizes dos nossos tempos que percorremos uma história cheia de cinismo e curiosas críticas ao mundo da Sétima Arte. Robin Wright (que também está ao lado de Kevin Spacey na fantástica série televisiva “House of Cards”) leva-nos ao paraíso e faz-nos regressar ao Inferno. A ideia nem é muito nova. Já vimos isto em “The Matrix” (mas atenção: esta história foi escrita muitos anos antes – em 1971 por Stanlislaw Lem – “The Futurological Congress”). Neste caso não é o comprimido azul ou vermelho. Neste caso basta um comprimido branco para abandonarmos as mordomias e voltarmos à realidade fria, suja e de pessoas doentes e feias.

Nada mudou. Dantes o mundo era mascarado com drogas e anti-depressivos. Agora as drogas são melhores e a realidade é contornada através da alucinação.

No fim, voar é o melhor que se pode fazer. Sobrevoar a vida procurando uma razãoou então, como canta a certa altura a protagonista, “if it be your will, that i speak no more, and my voice be still, as it was before, i will speak no more” (obra prima de Leonard Cohen).

“O Congresso” é um filme de Ari Folman, baseada na história do polaco visionário que escreveu “Solaris”. O israelita de “Valsa com Bashir” começa por dar a Robin Wright o poder de se reinterpretar. Ela faz dela própria (uma vesão alternativa pelo menos) e os estúdios de cinema “Miramount” querem realizar um scan a todos o seu corpo e expressões e torná-la uma actriz virtual.

http://vimeo.com/86621592

O futuro é aquele e não há volta a dar. O cinema com actores de carne e osso acabou. Uma premonição de Stanlislaw Lem. A relidade virtual já é real. O futuro não vai ser colorido e não é de agora que nós sabemos. Depois de ver este filme, nunca mais vai ser o mesmo!