Convento de Monchique: um Ímpar Edifício do Porto em Perdição, por André Silva

monchique

Os tramos da abóbada manuelina no primeiro plano;
o torreão manuelino no segundo plano à direita.

Quem alguma vez ouviu falar no Convento de Monchique? Quem já se questionou sobre o porquê do Porto, sendo desde sempre uma das cidades mais importantes de Portugal, não ter – pelo menos que seja conhecido – um edifício de estilo de arquitetura manuelina? Poder-se-ia responder que foi um estilo que ficou pelo Sul, por ser lá que se encontrava a corte. Mas essa resposta não serve porque no Norte também existem grandes exemplares, como é exemplo a Igreja de Freixo de Espada à Cinta.

O Porto – como segunda capital do país – não foi contemplado com esse estilo! Enfim, esta afirmação não é verdade, como nos demonstram algumas das antigas fotografias do Convento de Monchique, conservadas no Arquivo Histórico Municipal do Porto.

Este convento ainda existe. Situa-se em Miragaia, entre a Calçada de Monchique e a Rua de Sobre-o-Douro, um pouco a montante do Museu do Vinho do Porto: mal conhecido e num estado de ruina tal que aparenta tratar-se de uma ruina vulgar sem qualquer importância. Que enganados que estamos. Partes importantes deste edifício foram construídas no reinado de D. Manuel I e, apesar da bela abóbada ter desaparecido, ainda subsiste uma espécie de torre com ameias e cones manuelinos. A abóbada da igreja ainda existia no século XX, mas parece que um antigo proprietário achou-a tão bela que a desmantelou para a reconstruir em sua casa.

É estranho este desprezo e esquecimento a que foi votado este convento. Ainda no século XIX era tido como um dos mais belos e ricos do Porto. Além do seu ímpar estilo arquitetónico é de notar que o Convento de Monchique protagonizou o momento alto do “Amor de Perdição” que nos narrou Camilo Castelo Branco.

Que pena deixarmos perder-se para sempre o pouco que ainda resta do estilo manuelino no Porto; que pena perdermos o cenário do desenlace final de um romance de um dos nossos maiores escritores e do qual ainda recentemente se lhe ergueu uma escultura: situada na Cordoaria e intitulada precisamente: “Amor de Perdição”.

 

 

 

 

Bibliografia: SILVA, Fernando, “O Convento de Monchique” in “Boletim da Associação dos Amigos do Porto”, 3.ª Série, n.º 12, Porto, 1994; BRANCO, Camilo Castelo, “Amor de Perdição”, Porto, Civilização, 1999. Fotografia: Arquivo Histórico Municipal do Porto, “O Porto e a Europa do Renascimento: Perspectiva sobre o Convento de Monchique”