Álvaro Siza: “Para os arquivos, quis instituições independentes, com autonomia”

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A notícia de que Álvaro Siza (n. Matosinhos, 1933) estava a considerar depositar o seu arquivo numa instituição no estrangeiro, no Canadá, motivou alguma inquietação nos meios da arquitectura e políticos nacionais.

O arquitecto do Pavilhão de Portugal confirmou, entretanto, que o seu acervo será dividido entre o Centro Canadiano de Arquitectura (CCA), em Montreal, e as fundações Gulbenkian e de Serralves. Em entrevista ao PÚBLICO, Siza justifica as escolhas pelo facto de se tratar de “instituições independentes, com autonomia”, que garantem a efectiva catalogação, exposição e acesso público aos seus trabalhos. O projecto da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, e a Fundação Marques da Silva, da Universidade do Porto, segundo o arquitecto, não preenchem esses requisitos.

Por que é que decidiu tratar, nesta altura, do destino dos seus arquivos?
São os 81 anos (risos). Não vou deixar essa tarefa, com tudo o que ela traz, aos meus filhos…

Não se trata, então, de uma preocupação que vinha de trás?
Não. Há uns anos, houve dois ou três pedidos de arquivos, do Centro Pompidou (Paris), de um coleccionador de Londres, Niall Hobhouse, e do MoMA (Nova Iorque). O primeiro desses pedidos, do Pompidou, foi já há muitos anos – eles quiseram uns desenhos… Agora, o problema dos arquivos não é apenas meu, diz respeito a muitos arquitectos. Até porque muitos deles reduziram instalações e têm falta de espaço onde colocar os documentos. Sentem essa responsabilidade e não podem simplesmente queimá-los. É claro que há arquivos, fantásticos, que são os das câmaras, que têm os projectos todos em depósito, mas que não são muito usados, nem será fácil usar. Mas um arquivo de arquitectura é outra coisa. Há o problema do sítio e das condições de depósito. Mas o mais importante é que esses arquivos sejam catalogados, consultáveis, utilizáveis para publicações, exposições, etc…

Em Portugal, não há instituições especificamente vocacionadas para esse trabalho?
Em exclusivo, não. Mas na Gulbenkian existem já arquivos de arquitectura. Do [Manuel] Tainha, do Cristino da Silva, do Raul Lino…, que são arquivos muito importantes para a história de Lisboa. A Gulbenkian tem já um serviço organizado nesse sentido. Em Serralves não havia, mas manifestaram agora interesse nesse sentido.

Mas, pelo que se soube, a primeira instituição que lhe manifestou um interesse efectivo nos arquivos – e que o entusiasmou – foi o CCA…
Foi mesmo a única que me contactou, quando eu não estava decidido, ainda, a coisa nenhuma. Não sabia bem o que fazer. Mas houve um contacto do CCA, que estavam interessados em ter os meus arquivos.

Escolheu-a por se tratar de uma instituição internacional e tãi prestigiada?
Agradou-me saber que ali há anos de experiência, e fica juntamente com muitos outros arquivos que eles têm, desde o século XVIII até arquitectos contemporâneos.

Aí ficará bem acompanhado, ao lado de Peter Eisenman, Aldo Rossi, James Stirling.…
Eles é que não sei se ficam bem acompanhados (risos). Mas eu fico. O CCA é muito conhecido, e julgo que são os melhores, mais actuais e mais completos arquivos, tanto na edição como nas exposições.

Por que decidiu também dividir as coisas por Serralves e pela Gulbenkian?
Porque o próprio CCA manifestou, não só concordância, mas também interesse em que uma parte das obras ficasse em Portugal.

Essa não era também uma preocupação sua?
Claro. Correspondia também a um desejo meu. Se surgisse a oportunidade. Houve também a manifestação do interesse por parte das duas fundações. Primeiro, foi a Gulbenkian que me contactou, simpaticamente, dizendo que estavam interessados nos arquivos. Depois, contactou-me Serralves. A seguir, houve contactos entre o CCA e as fundações.

Como vai ser feita a divisão dos arquivos pelas três instituições?
Isso já está estabelecido. A parte que vai para a Gulbenkian é a mais ligada à região de Lisboa, para Serralves, a do Porto. Isto não é uma ideia paroquial, mas é assim… Havia também pressões do género “o Pavilhão de Portugal não pode ir para o Porto” e “Serralves não pode ir para Lisboa”… Há sempre um Porto-Benfica no ar. Mas acho isso uma decisão boa, porque, na região de Lisboa, quem quiser consultar os arquivos, tem as obras à mão; e o mesmo no Porto. Há uma lógica nisso.

Como vai ser feita a coordenação entre o CCA e Serralves e a Gulbenkian?
A seguir a essas manifestações de interesse, o arquivista do CCA teve logo uma reunião com a Gulbenkian e com Serralves, em que eu estive presente. E o CCA disponibilizou-se para pôr o seu know how à disposição deles. Para unificar, por exemplo, a catalogação e para o estabelecimento dessa rede.

Os seus cadernos de desenhos estão incluídos na doação?
A quase totalidade deles ficará no Canadá – havia interesse em ficarem juntos. Mas ficarão consultáveis. Os que não dizem respeito aos projectos de arquitectura ficarão para os meus filhos.

Quais foram as contrapartidas, que exigiu para as doações?
Houve uma conversa entre os arquivistas, em que eles debateram quais eram as condições para garantirem – e aqui teve muita importância a experiência do CCA –, primeiro, unificar a catalogação para a consulta em rede; segundo, para garantir que esses arquivos não eram apenas um depósito de desenhos. E também estabelecer a dinâmica entre as várias instituições, o que é uma coisa importantíssima para que os arquivos sejam não um depósito mas uma coisa viva.

Para a realização de exposições, por exemplo?
Sim. E até teve peso na decisão o facto de Serralves ir organizar uma grande exposição sobre o SAAL, que depois vai para o Canadá. Mas há aqui um aspecto importante. Para os arquivos, quis instituições independentes, com autonomia, e que não variem de quatro em quatro anos, ou coisa que o valha. Numa câmara, ou numa universidade, tudo pode mudar, de quatro em quatro anos, ou por alguma nova estratégia. Foi por isso que privilegiei uma instituição que é autónoma, e que tem um passado de trabalho em conjunto com outras instituições. Foi isso que encontrámos também na Gulbenkian e em Serralves, esta com experiência no campo da pintura e da escultura, mas que demonstrou interesse em encarar agora também a arquitectura, como está a acontecer nos museus de arte contemporânea por toda a parte.

Haverá alguma contrapartida económica por parte de cada uma destas instituições?
Não. É uma doação, em todos os casos.

Isso não é um gesto de excessivo altruísmo?
Não, não é. E também não é um caso isolado. Actualmente, o peso que têm os arquivos deste género, e toda a actividade que é necessária para não ser uma coisa morta, não permite às instituições estarem ainda a pagar. Por outro lado, houve uma fase em que havia interesse pelos desenhos dos arquitectos, criado um pouco artificialmente, mas que já passou. Ainda há interesse, mas não do ponto de vista do mercado, como quando se compra um quadro.

Mas os seus desenhos têm valor de mercado…
Os desenhos de arquitectura, não. E os outros, têm eventualmente, mas nunca se sabe até quando. Nos desenhos de arquitectura, o que é importante é manter, não só o registo, mas o debate que se cria em torno do projecto, não nacional mas internacional. É isso que é importante para a arquitectura, e que corresponde àquilo que ela é hoje, que já não é o nacionalismo. Isso é uma coisa que está em debate generalizado em todo o mundo. E esse debate importa, e muito.

Espera que uma maior internacionalização da visibilidade dos seus arquivos venha favorecer essa discussão, e acredita que a sua decisão poderá abrir espaço para a salvaguarda dos arquivos de outros arquitectos portugueses?
Isso já está em processo na Gulbenkian, por exemplo, como já referi. E irá desenvolver-se mais, até com essa parceria com o CCA. E sei que há muitos arquitectos que têm o mesmo problema com que eu estava.

Por que é que o projecto da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, e a Fundação Marques da Silva, da Universidade do Porto, ficaram de fora da sua decisão?
Em Matosinhos, estava em curso um projecto, que é meu, e que não andou, não foi candidatado. Não sei exactamente porquê, houve uma desistência desse projecto. E a comissão que estava formada também se desinteressou. A única coisa que ouvi, concreta, é que era muito caro, e também ouvi dizer que era faraónico. Mas um museu de arquitectura tem determinadas necessidades, que resultam em “x” metros quadrados –  e o metro quadrado não é de graça. E o programa para o museu foi realizado por aquele que é o grande especialista dos arquivos em Portugal, que esteve antes nos arquivos dos Monumentos Nacionais, o Dr. João Vieira, uma pessoa de grande experiência e competência, e de grande contacto com os arquivos. Ele fez um estudo muito completo, com a colaboração dos projectistas, sobre o custo do museu e também o cálculo sobre os custos de manutenção. Muita gente se preocupa com o custo do edifício, mas o problema é a manutenção. Ele calculou aquilo e, depois, ou havia peito para andar para a frente, ou não havia. Em Matosinhos, não houve, e falharam o lançamento.

O presidente da Câmara, Guilherme Pinto, falou ainda recentemente do projecto de recuperar a Companhia Real Vinícola para instalar lá os arquivos de arquitectura…
Pelo que me disse o presidente da câmara, vão agora lançar a recuperação da Real Vinícola, que estaria pronta em 2015, antecedendo a realização do outro projecto. Mas, em 2015, é evidente que não está pronto, sobretudo tudo o que seja formar uma equipa para o funcionamento e a manutenção do edifício. Aliás, o próprio presidente também disse que não tinham condições, num curto prazo pelo menos, de ficar com os arquivos. Até porque o que está em causa não são os meus arquivos, é uma coisa muito mais geral. E também me disse que Matosinhos tinha agora uma tarefa importante, que era a manutenção dos edifícios. O que muito me sensibilizou.

Mas o caso da Fundação Marques da Silva é diferente. É uma instituição que tem já alguma prática nessa área e possui arquivos de vários arquitectos. Para além dos do seu patrono, tem os históricos da Escola do Porto: Rogério de Azevedo, Távora, Soutinho, Loureiro… Não faria sentido que a sua obra também estivesse lá representada?
Sim, a fundação está a iniciar esse trabalho, e eu, aliás, estive com a senhora vice-reitora [da UP], que me mostrou o que está em curso no sentido de organização e tratamento dos arquivos. Mas, neste momento, isso ainda não existe.

A fundação não o contactou a manifestar interesse no seu arquivo?
Só depois desta polémica. Antes, não me tinha contactado…

Agora não chegou a tempo?
Eu já tinha decidido o que ia fazer, e discutido com as pessoas interessadas. E, como lhe digo, estou particularmente interessado nesse caminho de instituições que tenham autonomia, e que tenham já contactos com outros arquivos.

Mas não gostava de poder ver um museu, ou uma Casa da Arquitectura – no fundo, aquela que projectou –, ser concretizada em Matosinhos ou no Porto?
É claro que gostava, e isso correspondia à necessidade e desejo de muita gente. Mas isso morreu.

Nos trabalhos que tem em curso em Portugal, em que situação estão as fundações Nadir Afonso (Chaves) e Manuel Cargaleiro (Seixal)?
O edifício da Nadir Afonso está quase pronto, está-se a trabalhar nos arranjos exteriores, no ajardinamento, etc. E, no Seixal, também está acabado o edifício. Agora, o Manuel Cargaleiro vai pôr lá, sobretudo, azulejos que ele fez ligados à arquitectura.

E o projecto da Casa Manoel de Oliveira em Serralves?
O projecto de execução vai ser entregue no fim de Setembro.

Que outros trabalhos tem em mãos?
Em Portugal, muito poucos, e com evolução difícil. Ou falta o financiamento, ou o empreiteiro vai à falência, ou desiste a meio da construção, e depois é preciso arranjar outro construtor. E os projectos públicos – os poucos que há – estão a demorar perto de dez anos.

Incomoda-o a situação do Pavilhão de Portugal?
Aqui o incómodo pessoal interessa pouco. Agora não há dúvida de que investiu-se ali, e não foi pouco, e o edifício não está aproveitado.

O que acha que devia fazer-se com ele?
Não tenho nenhuma opinião particular, porque o projecto que me foi encomendado foi nas condições de que teria de ter a dignidade de um pavilhão do país organizador [da Expo’98], mas que não se sabia a finalidade. Diziam mesmo que podia vir a ser um museu, ou um edifício de escritórios. A primeira hipótese que surgiu era de que fosse um edifício para o Governo. Depois houve outro estudo para um centro cultural, e depois para uma secção da CPLP. Também não foi para a frente. Agora, se me perguntam o que acho, o meu interesse é que fosse um edifício público. Mas a situação não é nada boa.

Como vê a situação actual da arquitectura, que esteve muito na moda nos anos 1990/2000?
Falou-se muito, de facto. Muitas vezes, quando se fala muito de um assunto, é porque ele está mal, e era o caso.

Mas, entretanto, irromperam na cena mediática mundial as “estrelas” da arquitectura: Frank Gehry, Zaha Hadid, Rem Koolhaas… Como vê este fenómeno?
É um fenómeno perfeitamente compreensível, havendo esta globalização. E havendo muito mais intercâmbio do que havia. Já não é surpresa nenhuma um arquitecto americano trabalhar em Espanha, ou um espanhol trabalhar… embora isto não seja tão frequente. Depois, isso também não é uma coisa inteiramente nova. Aqui, no Porto, alguns dos edifícios fundamentais na cidade são de um arquitecto italiano, o Nasoni. Isto é uma coisa antiga, no fundo, com canais muito direccionados. Era a Itália, o centro da Europa, etc… Já havia essa globalização. Assim como os arquitectos europeus construíram muito na Ásia e na África. Agora tem outra dimensão, e tem também alguma possível perversidade.

O que acha da obra dos três nomes referidos, e da visibilidade que eles conquistaram num mundo onde, muitas vezes, são tratados como “estrelas” de Hollywood?
Isso é um estilo, depende do temperamento das pessoas. Mas não é essa pompa e circunstância que valoriza a arquitectura. Dos nomes que citou, os que gosto mais são o Gehry e o Koolhaas. São arquitectos muito importantes, que têm dado uma contribuição riquíssima para a evolução e o debate sobre a arquitectura. A Zaha Hadid, para mim, é menos interessante, muito embora também não se pode esquecer o impacto que a arquitectura dela tem no desenvolvimento da cidade, com esse mediatismo de que fala.

Como vê a situação actual da arquitectura portuguesa?
Vejo-a com grandes dificuldades, mas com qualidade. Infelizmente há muitos arquitectos, e sobretudo muitos jovens arquitectos, a trabalhar – e, em geral, a serem muito bem recebidos – na Suíça, na Finlândia, na América do Sul, na China…

Actualmente, também está a trabalhar na China…
Felizmente, estou. Aí atrás tem um dos edifícios, e que tem corrido muito bem. Um trabalho que faço juntamente com o arquitecto Carlos Castanheira. É um edifício de escritórios para uma grande indústria de sílica, em Jiangsu, a norte de Xangai. É um trabalho feito por convite, e eles são óptimos clientes, que querem realmente qualidade e compreendem que o projecto tem de ser feito até ao detalhe. Nós desenhamos tudo no Porto, e em Gaia, no atelier do Castanheira. Estamos concentrados neste trabalho, que correu muitíssimo bem. Nem sempre assim acontece na China. Tenho outro projecto na mesma cidade, que é extraordinário: a universidade convidou-me para fazer um Museu Bauhaus. Eles compraram uma colecção fantástica da Bauhaus a um coleccionador em Berlim, com mobiliário, tecidos, tudo, e vão fazer um edifício para expor essa colecção e realizar workshops para os estudantes. Em breve, vai começar a construção do edifício.

Também tem obra na Coreia do Sul…
Já fiz uns laboratórios e uma casa de férias numa ilha. O proprietário comprou um terreno ao lado e quer fazer lá um pavilhão de chá…

E noutros países?
Pouca coisa. Estou a fazer um auditório para uma pequena cidade em Espanha, Linares – parece um milagre estar-se a fazer isso. E estou também a fazer – esse sim, um trabalho muito interessante –, com o Eduardo Souto de Moura, uma estação do metropolitano na Praça do Município em Nápoles. Estamos a trabalhar nisso há dez anos!… Sabe como é em Itália: abre-se uma cova e começam a aparecer coisas romanas, gregas, árabes… Por isso demora muito. Em Espanha, terei também, em Granada – e julgo que irá para a frente –, o edifício para receber as 8500 pessoas que, por dia, visitam a cidade, e para que isso não seja um caos.

Costuma viajar para acompanhar os seus projectos, mesmo os mais longínquos?
À China já fui seis vezes, mas, desde que tive o acidente no braço, parei. Mas o Castanheira está lá a cada mês e meio. E só se consegue essa qualidade acompanhando a obra assim. Trabalhamos aqui com maquetas grandes e pequenas, e o Castanheira é fantástico, quer no controlo do trabalho, quer nas relações com os donos de obra e os empreiteiros. Eles estão agora a pressionar para eu ir à inauguração do edifício em Jiangsu, mas a viagem é muito longa, e tenho um certo receio.

Fonte: Público

5 Agosto 2014