As Torres do Aleixo e a sua Relação com o Meio Urbano do Porto, por André Silva

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As três Torres do Aleixo vistas a partir de Gaia
Patrícia Marcos, 2014

Na marginal duriense de Gaia, desde a Ponte da Arrábida para jusante, visualizam-se ainda três das cinco torres do atualmente tão falado Bairro do Aleixo. Uns defendem a sua demolição pelos motivos conhecidos; outros defendem a sua reabilitação.

À parte desta discussão e observando as torres a partir de Gaia constata-se que, apesar da sua altura, parece que se integram harmoniosamente na paisagem urbana: são esbeltas, o seu desenho é delicado e, no fundo, mais do que a horizontalidade e os amplos vãos envidraçados, o que tem caraterizado o espírito urbano das edificações do Porto são aspetos como a verticalidade, a delicadeza das suas fachadas e o carater rude da pedra e do betão.

Nesta perspetiva as Torres do Aleixo têm muito mais a ver com o espírito urbano portuense que muitos dos edifícios horizontais e/ ou envidraçados que atualmente se constroem. Talvez isto devesse constituir um motivo de reflexão. Qual é o tipo de construções que queremos para o Porto? Podemos considerar que a traça tradicional já não se adequa aos tempos atuais e por isso devemos mudar. No entanto é preciso ter em conta que essa mudança acarretará consequências como a descaraterização da sua traça global.

As Torres do Aleixo foram projetadas em 1968 para realojar uma parte significativa da população da ribeira. E o seu projeto foi feito na sequência do plano de urbanização que então vigorava na cidade e onde se procurava adaptar o centro histórico às atividades terciárias e resolver os problemas de salubridade das suas habitações.

Apesar de muito se contestar a altura das torres – como acentuadoras da segregação social – o que é certo é que, ao contrário do que se verifica normalmente nos edifícios em altura, os moradores integraram-se de tal maneira no contexto das suas habitações que desenvolveram um espírito comunitário e uma apropriação do espaço calorosa que nada tem a ver com a vulgar frieza que carateriza a relação entre os moradores de prédios em altura.

 

Bibliografia: “Plano Director da Cidade do Porto”, Câmara Municipal do Porto, 1962; LIMA, Ana, “Aleixo: o Início do Fim” in <www.revistapunkto.com/2011/12/aleixo-o-inicio-do-fim-ana-lima.html> [2014/08/26]; MOREIRA, Paulo, PESTANA, Mariana e AIRES, Nelson d’, “Aleixo Sempre” in “Jornal Arquitectos n.º 249”, Ordem dos Arquitectos, Janeiro-Abril de 2014.