Exposição “Dominguez Alvarez – Sinais do Modernismo no Porto – anos 30″ – artigo de José Rosinhas

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“Dominguez Alvarez – Sinais do Modernismo no Porto – anos 30”.

Data: 15 de Outubro a 16 de Novembro de 2014

Local: Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, Porto

 

 

“O Modernismo no Porto” é o tema das actividades que irão decorrer ao longo do ano na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, assim a propósito do seu cinquentenário aniversário, a instituição propõe exposições, edições, visitas orientadas, um ciclo de conferências e um seminário internacional intitulado “Cidades em Transição”.

A Fundação tem trabalhado como um agente de mudança, isto é, como um empreendedor social em que apresenta neste momento uma exposição de um artista plástico portuense que ele próprio também foi um agente de mudança, mas na arte portuguesa no início do século XX, falamos de Dominguez Alvarez (1906 – 1942). Como breve nota biográfica Alvarez, filho de pais galegos, estudou pintura nas Belas do Porto e em 1929 fez parte do grupo modernista “+Além”; do seu percurso artístico salientam-se três períodos, o primeiro de 1926 a 1929 intitulado de “fase vermelha”, o segundo de 1929 a 1936, o período de consolidação como pintor, e o último período de 1937 a 1942 como o de afirmação e de algum reconhecimento.

Nesta exposição o público poderá ter acesso a mais de cem obras do artista que vão desde, desenhos, aguarelas e óleos sobre tela ou sobre cartão. Um dos pormenores interessantes desta mostra é que há uma informação adicional nas legendas, quem assumiu a responsabilidade da atribuição a Alvarez das obras expostas, os pintores Joaquim Lopes (1886-1956), Dordio Gomes (1890 – 1976) e Armando Alves responsabilizam-se por essa “identificação”.

“Alvarez, o teatro do absurdo”, é um dos capítulos de um belíssimo texto intitulado “O desejo da expressão, crítica e ultrapassagem do modernismo” dedicado à década dos anos 30 e de autoria da Prof.ª Doutora Raquel Henriques da Silva, editado no livro “Panorama da Arte Portuguesa no século XX” cuja coordenação esteve a cargo do Prof. Fernando Pernes. Nesse texto, a autora refere-se a Dominguez Alvarez como “…foi o artista portuense dos anos 30, configurando, como nenhum outro, a figura do “artista maldito”…” Trata-se assim de um artista com um percurso difícil e solitário cuja obra só obteve reconhecimento do público em geral, após a sua morte numa retrospectiva realizada em 1951.

A sua obra retrata a vida portuense da altura, o Porto popular, assim observamos tabernas, casas, ruas, árvores despidas ou com copas de formas que sugerem peças de puzzle, homens solitários com e sem bengalas, carroças, e temas como enterros, os pobres, os retratos com influência nítida de El Greco e as paisagens da Galiza, da Estremadura e de Leão. Em termos técnicos podemos constatar o seu interesse em produzir as suas próprias tintas e cores (sem tons, nem timbres)

Numa carta dirigida ao seu amigo Sampaio a propósito de uma venda das obras, ele assina como o “seu amigo certo”, com certeza que Alvarez é o amigo certo da Cidade do Porto, para compreendermos a realidade da invicta nos anos 30.

A exposição apresenta-nos um auto-retrato do artista, uma obra não assinada e não datada, da colecção do Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se de um óleo sobre cartão de pequenas dimensões, mas de uma amplitude artística brutal; nós, o público voyeur da sua vida e obra também somos observados por Alvarez, em que através do nosso olhar e do artista marginalizado criamos um diálogo silencioso, realista e profundo para conhecer o seu sonho de pintura.

Uma vida e obra para conhecer.

 

 

José Rosinhas

Outubro 2014

 

 

Bibliografia:

“Dominguez Alvarez – Sinais do Modernismo no Porto – anos 30”, edição Fundação Dr. António Cupertino de Miranda.

“O degenerado Alvarez”, Valdemar Cruz, in Atual / Expresso (11 de Outubro de 2014)

“Panorama da Arte Portuguesa no século XX”, Coordenação Fernando Pernes, edição Fundação de Serralves, Campo das Letras, 1999

Sítios consultados:

http://www.facm.pt (acedido a 19 de Outubro de 2014)

http://www.cam.gulbenkian.pt/ (acedido a 19 de Outubro de 2014)