Artigo “Casa Branca de Gramido: Onde se Formalizou, Finalmente, o Fim de Meio Século de Crise em Portugal”, por André Silva

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Casa Branca de Gramido
Patrícia Marcos, 2014

 

«– Como isto é bonito! – pensava ele. – É que nem há outro passeio assim nos arredores do Porto.» Foi assim que Júlio Dinis através de Manuel Quintino, uma personagem de um seu romance, caraterizou a marginal duriense em Valbom (Gondomar). E é no seio desta paisagem cuja discreta beleza concerteza não deixa indiferente quem por ali passeia que se encontra a Casa Branca de Gramido de que vamos falar.

Esta casa ficou célebre por ter protagonizado em 1847 a assinatura de uma convenção que pôs fim a um longo período de crise que se abatera sobre Portugal desde o início do século XIX. Foi nesta metade de século que ocorreram as invasões francesas e uma série de guerras civis com revoltas e contra-revoltas que parecia não terminarem.

A última dessas revoltas ficou conhecida como «Patuleia» e o seu termo foi imposto por forças estrangeiras que entraram no país, a pedido da Rainha D. Maria II, e que conseguiram fazer com que os revoltosos e o governo chegassem a um acordo que pareceu não desonrar nenhuma das partes em conflito. Esse acordo foi formalizado na casa branca que falamos e ficou conhecido como «Convenção de Gramido». Curiosamente esta casa até é um reflexo de todo este período de crise. Ora vejamos:

Os dois primeiros pisos foram construídos nos anos de transição para o século XIX – de notar que nestes anos Portugal ainda gozava de estabilidade económica embora já houvessem sinais de crise – e neles verificamos que, por um lado, existe um eruditismo neoclássico como são flagrantes os detalhes das molduras dos vãos e, por outro, encontramos também preocupações com contenções de despesas como vemos pelos seus simples entablamentos.

O período de crise encontra-se refletido no terceiro piso da casa. Cujo aparenta ter sido acrescentado por alguém com enormes preocupações em conter despesas, como vemos pela sua baixa altura e, principalmente, pela simplicidade dos vãos cuja soleira e padieira correspondem respetivamente à cornija e arquitrave dos entablamentos.

 

Bibliografia: DINIS, Júlio (pseud.), “Uma Família Inglesa”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992; OLIVEIRA, Camilo de, “O Concelho de Gondomar”, Porto, Livraria Avis, 1979-1983; SARAIVA, José, “História Concisa de Portugal”, Publicações Europa-América, 2011.