“Aquela garrafa de vinho tem uma história” | um artigo da autoria de Rogério Monteiro

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AQUELA GARRAFA DE VINHO TEM UMA HISTÓRIA

O turismo é feito de narrativas e o vinho e a gastronomia também encerram histórias que merecem ser contadas. Esta foi uma das ideias abordada no Seminário Enoturismo e Gastronomia que decorreu em Seia, na passada quarta-feira, 13 de Abril, na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda. Vários especialistas e investigadores partilharam conhecimento, ideias e tendências sobre os temas em análise.

Por Rogério Monteiro*

 

A Herdade do Esporão, que remonta a 1267, a aguardente vínica da Lourinhã, o vinho das íngremes encostas do Douro, as açordas do Alentejo e os milhos do Algarve fazem parte de um vasto elenco enogastronómico que carecem de classificação culinária, de proteção, dando atenção à etnologia e à memória.

O modelo económico deve assentar na “coopetição”, nas palavras da oradora Josefina Salvado, da Universidade Portucalense, e harmonização de serviços e produtos oferecidos por stakeholders, players e outros atores da cena turística, envolvendo as comunidades locais. A facilidade de mobilidade à escala global, conduz ao conceito de glocalização (Robertson: 1995), espaço multidimensional, multissensorial e multiemocional que se congrega em diversas territorialidades, que diverge e se concentra no «pensar global e agir local» (Geddes: 1915). Aponta-se o olhar para a captação do excursionista, visitante, turista, doméstico e/ou internacional, através de produtos que versem, na essência, a gastronomia e os vinhos, tanta e diversificada que é a oferta.

A experiência do produto enogastronómico entronca nos valores identitários das comunidades locais e assume valor holístico para o turista no desejo de intensificação da experiência, que se pode constituir, diz Sérgio Araújo, do Instituto Politécnico de Leiria, em “transgressão” daqueles valores. O efeito da sazonalidade que afeta determinados territórios pode ser minorado, lançando mão dos sabores rurais ou urbanos, típicos ou tradicionais, confundindo-se, por vezes, com o gourmet. Assumem relevo as motivações de fuga ao stress urbano, “fuga à cidade, a busca do contacto com a natureza, a paz e o silêncio”, de acordo com a investigadora e professora da Universidade de Aveiro, Elisabeth Kastenholz, que apela aos sentidos e adquirem o papel central.

O objetivo do turismo enogastronómico é que o visitante saia com um elevado grau de satisfação, que o pode levar à lealdade e fidelização, pois experienciou uma comida ou um vinho como nunca o fez. Neste setor, é importante a “aposta na diferenciação, no atendimento personalizado e em formação especializada”, profere Cátia Siopa, investigadora no Instituto Politécnico de Leiria. A nível gastronómico, a preferência do cliente recai sobre a “comida típica, seguida da internacional, gourmet e fast-food”. O cliente estrangeiro dá preferência à qualidade e variedade da ementa, por seu turno, o nacional procura a comida típica, “a receita da avó”, caracteriza a professora, contrariamente ao público jovem, que prefere centrar-se na sua apresentação.

Enfim, é importante apostar verdadeiramente no património cultural enogastronómico com História e estórias, em produtos que delicadamente se complementam. A ampla dimensão turística da comida e do vinho, o respeito pela autenticidade que, ao mesmo tempo, interage com a competitividade, que é económica e que também é cultural, social e ambiental, e por isso interferente na memória dos espaços – esta persistiu, persiste e persistirá em quem acolhe e vai ser, intangivelmente, levada pelos invasores, entenda-se, ocupantes temporários, visitantes dos espaços, turistas, fazendo-os lugares seus.

 

Bibliografia:

Geddes, P. (1915). Cities in Evolution. London: Williams & Norgate.

Robertson, R. (1992). Globalization: Social Theory and Global Culture. London: Sage.

Robertson, R. (1995). Glocalization: Time-Space and Homogeneity-Heterogeneity. In Featherstone, M., Lash, S. & Robertson, R. (eds.), Global Modernities, pp. 25-44. London: Sage.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador.