“Conflitos e património classificado” | um artigo da autoria de Rogério Monteiro

palmira

Conflitos e património classificado

Por Rogério Monteiro*

 

Na ordem do dia está a vulnerabilidade do Património Mundial, cuja pena de destruição impende sobre o “protoestado” Daesh: fluxos patrimoniais transnacionais (irracionais e absurdos, e que a UNESCO apela às casas de leilões americanas e europeias a não-aceitação de bens cuja proveniência seja duvidosa ou não-certificada), violência como demonstração de poder, suporte económico, conflitualidade geossimbólica como expressão do controlo de um território de interesse global, seletividade da memória e do state building, rompimento com o passado e exclusão do Outro, negando a sua identidade[1]. João Luís Fernandes, na conferência Património Comum da Humanidade – entre a promoção da paz, o turismo político e os territórios da insegurança e dos conflitos interroga: Património Mundial para a paz? A título de resposta fica a classificação pela UNESCO de dois bens na Palestina: os campos de azeite e vinhas, que perdeu o seu “arquiteto”, ou seja o agricultor, e a Igreja da Natividade. A UNESCO reflete um mundo sem fronteiras que são, agora, fonte de atratividade e contacto; os fortes e as fortalezas são agora territórios de partilha; os muros caíram[2]. Atente-se nos conceitos de pro-poor tourism[3] que, através do turismo, cria oportunidades em áreas de crise, amplia benefícios aos povos pobres e procura alternativas; heritage diplomacy e weak and strong ties[4], como expressão do diálogo, da interculturalidade, da miscigenação e da troca. As velhas conceções de enclausuramento, de “gentrificação” do património cederam lugar a novas conceções criativas e espetaculares. Outro conceito que se deverá ponderar é para o de traumascapes[5], que versa sobre as emoções deixadas em lugares de sofrimento violento. A experiência política dos traumascapes deve ser classificada na UNESCO, como aconteceu com o edifício que restou do bombardeamento de Hiroxima ou os campos de concentração nazi em Auschwitz-Birkenau.

 

[1] In Nunes, J. [Recensão a] Amartya Sen, Identidade e violência. A ilusão do destino. Revista Portuguesa de História. t.XL (2008/2009). pp. 447-452; e prólogo de Maalouf, A. (2004). Origens. Lisboa: Difel.

[2] Macau, território agora pertença da China, é bom exemplo de falta de planeamento estratégico do Património Mundial Classificado.

[3] In Wohlmuther, C & Wintersteiner, W. (Eds.). (2014). International Handbook on Tourism and Peace. Centre for Peace Research and Peace Education of the Klagenfurt University/Austria in cooperation with the World Tourism Organization.

[4] In Granovetter, M. (1973) The Strength of Weak Ties, American Journal of Sociology, vol. 78, 6, pp. 1360-1380.

[5] In Tumarkin, M. (2005). Traumascapes: The Power and Fate of Places Transformed by Tragedy.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador.