Artigo “Portugal, o Alentejo e o Património Imaterial – nostalgificação do lugar”, por Rogério Monteiro

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Portugal, o Alentejo e o Património Imaterial – nostalgificação do lugar

Para além do Património Material edificado, o Património imaterial, a identidade, valores, a forma de falar, conhecimento, práticas, saber fazer, a última coisa que vive ou habita no mundo rural passaram a ser apreciados e experienciados. O director geral do Património Cultural, e alentejano, Paulo Lima, em conferência na Universidade de Coimbra, abordou o Património Imaterial como “nostalgificação” do lugar.

 

Por Rogério Monteiro*

 

Portugal contribui para a Lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade com quatro elementos: dieta mediterrânica, fado, cante alentejano e chocalhos. A candidatura do cante alentejano surge para salvaguardar o interesse de um património que estava, há cerca de dez anos, em vias de extinção e descaracterizado, e cabe ao Estado português apresentá-la formalmente junto da UNESCO. O processo passou pela elaboração de um dossiê em três fases: formulação da candidatura, filme e fotografias. A classificação do cante, em novembro de 2014, como em outros países, reveste-se de capital importância no combate à exclusão social de sociedades envelhecidas. Já a candidatura dos chocalhos aparece para chamar a atenção para a salvaguarda da paisagem sonora, pastorícia e património genético de raças de gado vacum.

O património imaterial começou a ser usado como “arma política”, segundo Paulo Lima, a fim de as entidades nacionais e regionais assumirem as responsabilidades atinentes ao processo de classificação. No entanto, não se ponderou a falta de dinheiro na preservação do património salvaguardado e encontrou-se no turismo a forma de o angariar. Ambas as candidaturas abriram-se e tornaram-se em mais um elemento de oferta turística para quem se desloca, não só para comer e beber, mas também procura exponenciar a visita, tanto ao património material como experienciar o imaterial.

O património imaterial classificado pela UNESCO fica obrigado, pelo Estado, a ter planos de salvaguarda, para que não desapareça. E que estratégias se têm adotado? De resposta difícil quando o Alentejo se depara com vários constrangimentos: rede complexa de patrimónios sujeitos à turistificação; obrigar municípios a planos de salvaguarda, de difícil implementação; capitalismo estético que, desde logo, transforma o elemento inscrito; manter o cante só com população envelhecida, pois os jovens afastam-se para as cidades, em busca de melhores condições de vida. Apesar do despovoamento que vinha atingindo o território, graças à chancela UNESCO, foram criados postos de trabalho e houve algum regresso das pessoas, fixando-as. Desde 2008, a preservação desses patrimónios tem-se revelado pouco eficiente, dado que os órgãos responsáveis se distanciaram do imaterial, alicerçados até na ideia de a sociedade civil se interessar, sobretudo, pelo património material. Como forma de consolidação, Paulo Lima adiantou a ideia de criação de um Observatório para o Cante Alentejano – distinto do folclore do Norte.

O património imaterial, turismo e patrimonialização intersectam-se e Paulo Lima coloca a questão: tudo é patrimonializável? O Alentejo tomou, como primeira vontade, o património imaterial, mas há que criar boas práticas. O conferencista defende, para sustentabilidade dos bens patrimoniais, o empoderamento das gentes, dando-lhes ferramentas que possibilitem o diálogo com os operadores turísticos, que se tem revelado difícil. Tem que se deixar de entender o património imaterial como a “nostalgificação do passado”, sem correr riscos de fragmentação do social. Importante é resolver questões de como proteger gado e raças, por exemplo, e discutir a ética concernente ao cante alentejano, promover o debate, sem diabolizar o turismo.

Não se pode fugir da turistificação, enquanto gerador de riqueza, sem, todavia, alienar os valores de autenticidade, singularidade e identidade que esse património aporta aos lugares e comunidades locais.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador

Fotografia | crédito: Direção Geral do Património Cultural (DGPC)