” O Turismo vai “sofrer” com o Brexit?, um artigo Rogério Monteiro

 

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Não é, para já, expectável que o Brexit venha a condicionar negativamente o Turismo à escala global – o seu contrário também não. Cá dentro, o que se sabe é que “o Algarve é o principal destino dos turistas britânicos, concentrando 70% dos 8,3 milhões de dormidas anuais deste mercado no nosso país,” conforme noticiou a Turisver[1]. O que é certo é que há muitas questões, ainda sem resposta, mas é preciso compreender e reagir.

Por Rogério Monteiro*

 

A tónica é constante na complexidade de respostas sobre Turismo: muitas dúvidas, bastantes indefinições, múltiplas imprecisões e enormes incertezas, que o carreia na direção indesejada para os mercados recetores do turista britânico.  O que se afirma como inevitável poderá não ser mais do que especulação, pois, primeiro, serão os britânicos a aperceber-se do que decidiram.  Pode ainda haver marcha atrás no referendo do dia 23 de junho que ditou a saída do Reino Unido (RU) da União Europeia, expressa numa pouco firme maioria de 52% dos votantes? Perigoso foi não se ter tido a preocupação de avaliar o impacto político, social e económico. Segundo o Google Trends, a procura de respostas à frase “what happens if we leave the EU” [o que acontece se sairmos da UE] aumentou 250%, por volta da meia-noite do mesmo dia. No dia seguinte, noticiava-se a grande crispação suscitada na sociedade britânica.

O assunto foi discutido no webinar “The Impact of Brexit on Tourism” [Impacto do Brexit no Turismo], promovido pelo Centro de Tecnologia e Inovação em Hospitalidade da Universidade da Califórnia do Sul, EUA, no dia 6 de julho, por um painel composto por Dimitrios Buhalis, Diretor do Departamento de Turismo e Hotelaria da Universidade de Bournemouth (Inglaterra), Kevin Kaley, membro da The Tourism Society (Reino Unido) e Jerry Parrish, Diretor de Investigação da Florida Chamber Foundation (EUA).

Antes do referendo, o RU focava-se, essencialmente, no fluxo migratório de refugiados e pouco se falava das consequências de um Brexit. Os oradores, unanimemente, destacaram a complexa abordagem turística resultante da nova situação, essencialmente causada pela impreparação sobre o que poderia acontecer. A diversidade e pertinência das questões debatidas confirmam a indefinição e incerteza que se gerou em volta do setor do Turismo, surpreendendo a organização política, geopolítica e económica do RU, dividindo partidos e suportando demissões dos seus líderes, particularmente apoiantes do Brexit, complicando saber como se chegou até aí, o que se passa agora e que impacto terá, fundindo-se e confundindo-se com uma Escócia a dizer não e com a, segundo Kaley, londoncentric view.

O Professor Buhalis (EUA) assoma duas certezas: desvalorização cambial e prolongamento da incerteza política. Para o Turismo do RU, a (in)certeza de ser mais barato reside no menor outbound turístico – e. g., vai ficar mais cara a viagem de avião – e maior inbound de visitantes, exponenciando a procura pelo país recetor (RU) e fazendo cair a dos emissores.

Haverá alterações nos maiores mercados emissores de turistas para o RU, sobretudo Alemanha, França e EUA?

Jerry Parish exemplifica com a Florida, como mercado recetor de visitantes provenientes do RU, que tenderá a ter menos proveitos, e sugere apostar na diversificação dos mercados turísticos emissores. O mesmo se aplica ao Algarve, independentemente do que possa acontecer, sendo importante pensar num plano B, seja ele qual for.

 

O branding UK sofrerá danos?

Os oradores respondem com uma certeza: não ter certeza nenhuma. Kaley acha que a confiança no país se vai repercutir na perceção da marca da região e Buhalis pensa que vai assistir-se à polarização de posições, com a british correctness a declinar.

 

Como é que o sistema de vistos se processará e como é que se vão recompor as fronteiras?

Os britânicos estão a reagir e a mostrar interesse em saber como funciona o programa português de Autorização de Residência para Investimentos (ARI), mais conhecido por vistos gold.

 

Objetivamente, o Brexit terá impactos negativos ou positivos?

Com certeza, a hotelaria do RU alterará taxas e reduzirá recursos humanos, a que se alia a obrigatoriedade de os seus cidadãos terem de abraçar profissões antes menorizadas; outra certeza é que haverá novo líder político. Não resta se não esperar pelo dia seguinte. Assistir-se-á a uma grande volatilidade na qualidade da oferta turística britânica e haverá mais investimento no setor do Turismo. Ou não se deslocará este para outras regiões?

 

Em suma, Kevin Kaley condensa o Brexit numa imprevisível mess e o Professor Buhalis sintetiza-o num enorme if.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador

[1] In Revista Turisver, 6 de Julho de 2016, http://www.turisver.com/turismo-algarvio-acerta-estrategia-reino-unido/