Património Mundial como atrativo turístico Uma visita guiada ao Mosteiro de Alcobaça – a sacristia

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Relembro uma viagem guiada pelo património autêntico e rico em identidade histórica, religiosa e arquitetónica do Mosteiro de Alcobaça, mandado erigir no reinado de D. Afonso Henriques, que faz parte da lista de Património mundial classificada pela Unesco. Um edifício que pelas suas características e história associada, encerra em si um potencial enorme para a criação de produtos turísticos diferenciados, mas nem sempre é fácil o equilíbrio entre turistificação e preservação.

 

Por Rogério Monteiro*
Fotografia: Direitos Reservados

Neste primeiro capítulo, inicia-se a visita guiada por Isabel Costeira, subdiretora do Mosteiro de Alcobaça, que dissertou sobre uma edificação que procede de relevantes e cruciais objetivos de organização estratégica, humanização e cristianização do território – Alcobaça e Tomar faziam parte da Linha de Defesa do Tejo, eixo essencial que dividia o território cristão do mouro. Fora também dedicado à Virgem Maria – símbolo espiritual maior do feminino e representação alegórica da indelével importância associada à mulher, na forma divina e terrena, dando-se conta da sua incorpórea presença em quase todos os espaços como rainha e mãe.

A riqueza marcada na autenticidade arquitetónica e funcional e na incomum monumentalidade de uma abadia cisterciense do séc. XIII conferem-lhe traços identitários únicos para poder integrar a Lista do Património Mundial da UNESCO, desde dezembro de 1989. A construção orientou o templo para nascente, para o sol, manifestação suprema de Deus. No séc. XVI, surge o segundo momento fundacional, com D. Manuel I, que manda erigir a sacristia, a cargo do arquiteto Juan de Castillo. A sacristia manuelina, semelhante à dos Jerónimos, é o primeiro panteão régio da primeira dinastia, onde jazem D. Afonso III, filhos e esposas, e D. Pedro e D. Inês, coroada rainha depois de morta. Todavia, o terramoto de 1755 devastou grandemente essa ala, depois restaurada ao estilo barroco, mas que se mistura com o manuelino. Passada a antecâmara e já dentro da sacristia, observam-se duas peças de mobiliário, uma à esquerda e outra à direita da porta de entrada, que serviam para guardar pertences pessoais dos monges, com 132 gavetas, tantas quanto o número de monges que coabitavam no mosteiro. No topo, a Capela Relicário, do séc. XVII, o “espelho do Céu”, que, simbolizando o Santo Sepulcro, é o mais importante local de culto dos monges cistercienses. Aqui está representada a “corte celeste”, presidida pela Virgem Maria e ladeada por São Bento e São Bernardo; a luz solar proveniente de uma abertura na cúpula, ao incidir-lhe, aquando do solstício de verão, verticalmente, refletia todo o esplendor da talha dourada e brilho dos nichos-relicários, significando “a superioridade do espírito de Cister”; sobressai uma escultura de Nossa Senhora sem rosto, existindo apenas em fotografia, de “sorriso seráfico”, no Inventário de Leiria; é uma capela dedicada a mártires, ainda que se apresente, num dos nichos, o busto da Rainha Santa Isabel. No exterior da sacristia, observa-se o Jardim da Murtas e a Capela do Desterro (séc. XVII), cuja entrada foi murada em consequência dos frequentes saques do seu espólio, deixando de ser visitável. Em tempos, a sacristia acolhia eventos, sobretudo de cariz musical, cuja continuidade a nova gestão do Mosteiro impediu, face à degradação que ocorreria no secular património.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador.