Uma visita guiada ao Mosteiro de Alcobaça – A Sala dos Reis

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Este é o segundo capítulo de uma viagem cultural guiada ao património autêntico e rico em identidade histórica, religiosa e arquitetónica do Mosteiro de Alcobaça, mandado erigir no reinado de D. Afonso Henriques, que faz parte da lista de Património mundial classificada pela Unesco. No primeiro momento desta visita ficámos a conhecer a sacristia, e rumamos agora dos Claustros à sala do Capítulo.

 

Por Rogério Monteiro*
Fotografia: Direitos Reservados

A visita foi guiada por Isabel Costeira, subdiretora do Mosteiro de Alcobaça, que dissertou sobre uma edificação que procede de relevantes e cruciais objetivos de organização estratégica, humanização e cristianização do território – Alcobaça e Tomar faziam parte da Linha de Defesa do Tejo, eixo essencial que dividia o território cristão do mouro. Fora também dedicado à Virgem Maria – símbolo espiritual maior do feminino e representação alegórica da indelével importância associada à mulher, na forma divina e terrena, dando-se conta da sua incorpórea presença em quase todos os espaços como rainha e mãe.

A passagem para os claustros faz-se por um corredor ladrilhado nos séculos XII e XIII. Em alto-relevo numa das paredes da Igreja pode ler-se a inscrição latina aquaeductus, referindo-se ao canal aquífero que a atravessa subterraneamente. Por baixo dessa epígrafe, estão afiguradas as mãos de Santa Maria e de São Bernardo que, apontando para baixo, remetem para a salvação pela água. A sala que antecede os claustros, denominada de “Sala dos Reis”, do séc. XVIII, presta homenagem a D. Afonso Henriques, que surge coroado por São Bernardo. Dois séculos antes, era de utilização exclusiva dos monges e sem acesso à Igreja – no séc. XVII, abre à sociedade civil. Os reis só podiam ser enterrados fora da sala, na galilé, com exceção de D. Pedro. Em volta da sala, sucedem-se textos em azulejos, citando e representando cenas da História – Batalha de Campo de Ourique, Cortes de Lamego – e da vida clerical. Existe, ainda, um despojo da Batalha de Aljubarrota, um caldeirão, subtraído aos castelhanos, e um batistério, usado ainda hoje. Uma das portas dá para os Claustros das Procissões, agora do silêncio, onde os monges percorriam, em redor do Jardim do Éden, as doze estações da Cruz, em fila indiana, sempre no mesmo sentido, antes do ritual da libação. Daqui, abre-se uma porta de colunas – que simbolizam a criação do Homem por Deus, que recriam o Génesis e estão incrustados nos capitéis outros objetos, como a pinha a representar a sabedoria para os cistercienses, que devem ser todos letrados; onde se dá a separação do mundo terreno do mundo celestial – que dá acesso à Sala do Capítulo. De passagem, encontram-se outras valências para uso dos monges cistercienses: Sala das Conclusões, Parlatório e Sala dos Atos Literários, onde se crê terem funcionado os primeiros Estudos Gerais pré-universitários – Colégio de Nossa Senhora da Conceição, capela trazida para o mosteiro na época pombalina.

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador