Uma visita guiada ao Mosteiro de Alcobaça – da sala do capítulo à cozinha e ao restauro de Salazar

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Depois de uma viagem guiada pela sacristia e claustros, continuamos a conhecer a sala do capítulo e cozinha do Mosteiro de Alcobaça, relembrando uma viagem guiada pelo património autêntico e rico em identidade histórica, religiosa e arquitetónica do Mosteiro de Alcobaça, mandado erigir no reinado de D. Afonso Henriques, que faz parte da lista de Património mundial classificada pela Unesco.

 

Por Rogério Monteiro*
Fotografia: Direitos Reservados Let’s visit

 

A visita foi guiada por Isabel Costeira, subdiretora do Mosteiro de Alcobaça, que dissertou sobre uma edificação que procede de relevantes e cruciais objetivos de organização estratégica, humanização e cristianização do território – Alcobaça e Tomar faziam parte da Linha de Defesa do Tejo, eixo essencial que dividia o território cristão do mouro. Fora também dedicado à Virgem Maria – símbolo espiritual maior do feminino e representação alegórica da indelével importância associada à mulher, na forma divina e terrena, dando-se conta da sua incorpórea presença em quase todos os espaços como rainha e mãe.

A Sala do Capítulo, onde se reuniam os monges, teve uma tripla função: scriptorium, sala de trabalho e aquartelamento. O segundo andar dos claustros manuelinos era reservado ao dormitório. De seguida, passa-se para a cozinha, de arquitetura funcional, permitindo que a água corrente vinda do Alcoa corresse para um tanque de lavagens e fosse escoada, suja, para o Baça. Também se pode apreciar a primeira experiência arquitetónica mundial de utilização do ferro nas colunas que sustentam a chaminé, revestida a azulejos por dentro e por fora. Contíguo à cozinha, fica o refeitório. Para aí entrar, é preciso passar por um lavabo hexagonal brasonado, representando as “aves do paraíso” e mantém presente a devoção cisterciense mariana, ao invés do pouco culto a Cristo.

Com a vitória dos Liberais, na primeira metade do séc. XIX, foi ordenada, no reinado de D. Pedro IV, a extinção das ordens religiosas em Portugal e a Ordem de Cister abandonou o mosteiro em 1833, que passara para a alçada do Estado e onde, a partir de 1928, funcionaram diversos serviços. Salazar considera-o um território de “guerra santa” e procura recuperar a identidade fundacional perdida de D. Afonso Henriques, ao pôr em marcha um plano de reabilitação do património histórico, aplicando princípios de restauro que apontavam para a reconstrução da memória, já operado noutros países. Em Alcobaça, desmontam-se altares, dormitórios, teatro e refeitório e são reintegrados no mosteiro medieval; reconstroem-se marcos identitários (entre outros, o Mosteiro da Batalha, o Convento de Cristo, em Tomar, o Castelo de Leiria), uma “revolução” num país fechado como Portugal, mas que só avançaria com a identidade nacional recuperada.

A beleza da diversidade arquitetónica aliada a uma riquíssima fonte histórico-religiosa do Mosteiro também se verifica na afluência média anual de visitantes: cerca de 300 mil (200 mil com bilhete).

 

*Rogério Monteiro, mestrando do curso de Mestrado em Turismo, Territórios e Patrimónios, na Universidade de Coimbra. Licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ensino de Português como Língua estrangeira. Experiência profissional em países como Timor-Leste, RAE de Macau, França e República Checa. Viajante apaixonado, leitor e investigador.