Seminário sobre “decolonizar os museus” dá o mote para o debate

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Museólogos e investigadores defenderam esta sexta-feira, num seminário em Lisboa, a revisão do discurso e o refazer de colecções nos museus portugueses, tendo em conta o passado colonial de Portugal, que deve ser debatido “todos os dias, sem ressentimentos”.

Um painel de convidados participou no seminário Descolonizar os museus: isto na prática…?, promovido pela Associação Acesso Cultura, com o objectivo de debater um tema que tem estado na ordem do dia em vários países do mundo, sobretudo os que, no passado, tiveram colónias e uma ligação à escravatura, como Portugal.

Luís Raposo, presidente do ICOM-Europa (Conselho Internacional de Museus), face a perguntas da audiência, falou na necessidade de “rever discursos museográficos, refazer colecções, e constituir colecções que falem no tema da escravatura, ampliando ainda abordagens com a intervenção de comunidades com sensibilidades diferentes, para uma maior democratização destes espaços”.

Sobre a restituição de peças aos países de origem, considerou que “não é apenas uma questão técnica, mas também se esse sentimento de pertença é legítimo ou não, porque muitos dos objectos não têm a mesma simbologia”.

Isabel Raposo Magalhães, museóloga e especialista em conservação e valorização do património, apontou dados referidos no recente relatório elaborado em França, a pedido do Presidente Emmanuel Macron, no qual se indica que 90 a 95 por cento do património da África subsaariana está fora da sua área geográfica. Salientou “o papel fundamental das organizações intergovernamentais no acompanhamento e na criação de condições para a restituição do património”, apontando que a UNESCO, desde o final dos 1970, começou a falar na necessidade de restituir o património a África, com países e organizações a fazer esforços nesse sentido, nomeadamente a França e a Alemanha.

A restituição “passa por legislação internacional e pelo estudo da proveniência das peças, algumas delas já classificadas, o que poderá implicar a revisão de legislação nacional”, disse ainda Isabel Raposo Magalhães​, defendendo a mobilização da sociedade civil no sentido da descolonização dos museus.

Paulo Costa, director do Museu Nacional de Etnologia, por seu turno, apontou a falta de meios: “Os funcionários dos museus, à sua maneira, são todos os dias activistas, porque, apesar da situação, dão o seu melhor”. “O nascimento do museu de Etnologia, nos anos 1960, deu-se já numa filosofia de multiculturalismo, o que era, na altura, uma posição de vanguarda que é hoje desconhecida de muita gente”, vincou, convidando os participantes a visitar a exposição permanente da entidade.

Já o sociólogo Manuel Dias dos Santos defendeu que “é necessário debater as questões em torno do passado colonial todos os dias, em Portugal, sem juízos de valor, mas com factos, e sem ressentimentos”.

(…)

Fonte: Público

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