Morna já é Património Cultural Imaterial da UNESCO

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Cesária Évora

Cesária Évora

A decisão final sobre a ratificação da classificação, que já tinha recebido o aval da comissão de peritos em novembro, foi adotada na 14.ª reunião anual do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, que decorre desde segunda-feira no Centro de Congressos Agora, em Bogotá, Colômbia.

Marcada pelas letras do poeta Eugénio Tavares (ilha da Brava, 1867 — 1930) e mais de tarde de Francisco Xavier da Cruz ou ‘B.Léza’ (ilha de São Vicente, 1905 — 1958), a morna conheceu o seu expoente maior fora de Cabo Verde através da cantora César Évora (1941 — 2011), que através daquele género musical abriu as portas do mundo a um país de pouco mais de meio milhão de habitantes.

A morna surge de uma mistura de estilos musicais com fortes raízes africanas, o landum, com as influências da modinha luso-brasileira, recorda o dossiê de candidatura a Património Imaterial Cultural da UNESCO.

Uma das referências escritas mais antigas sobre a morna consta de um livro do oficial da marinha russa Konstantin Staninkovitch, que visitou Cabo Verde em 1861.

“A morna é uma prática musical que se estrutura em três dimensões: melodia, poesia e dança, caracterizando-se pelo compasso quaternário, ritmo lento e predominância dos esquemas tonais menores clássicos perfeitos de influência europeia”, lê-se ainda no processo.

Interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem também mornas apenas instrumentais, e versando temas “lírico-passionais, produz-se uma canção melancólica, muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual”.

Geralmente acompanhada por viola, cavaquinho, violino e piano, o “instrumento de excelência da morna” é o violão, introduzido em Cabo Verde no século XIX.

A candidatura de Cabo Verde foi alicerçada na cultura popular que manteve viva a morna até aos dias de hoje, alimentada por músicos e intérpretes de todas as idades.

O processo levado à UNESCO conta com 77 declarações individuais de consentimento e apoio, de instrumentistas, compositores e interpretes de morna, até artesãos e construtores de instrumentos de corda.

Fonte: JN